“TRUMPCENTRISMO”: QUANDO A ORDEM INTERNACIONAL VIRA UM PALCO COM UM SÓ PROTAGONISTA
“Trumpcentrismo” nomeia um fenômeno que vai além de uma política externa assertiva ou de slogans como America First. Trata-se de uma tentativa de reorganizar a percepção global — e, por extensão, parte dos mecanismos diplomáticos — em torno de um eixo pessoal. Se há crise, a solução deve passar por Trump; se há paz, a autoria é sua; se há instituições, elas só valem quando o confirmam. Não é uma doutrina coerente, mas uma estética de poder: o líder como marca, árbitro e “certificador” supremo de legitimidade.
O anúncio de um “Conselho de Paz” em Davos sintetiza esse método. Embalado como novo fórum para gerir paz e reconstrução — com ponto de partida em Gaza e ambição global — o projeto surge cercado de cerimônia, assinaturas solenes e promessa de impacto imediato. A desconfiança diplomática, porém, é previsível: muitos enxergam ali menos uma inovação institucional e mais uma tentativa de rivalizar, contornar ou esvaziar, na prática, o sistema multilateral representado pela ONU. E a questão central não é apenas se o mecanismo funcionará, mas o gesto político: criar uma plataforma paralela para uma função que já possui arquitetura jurídica e legitimidade internacional, ainda que imperfeita.
O multilateralismo é lento, frequentemente frustrante, e paga o preço de tentar conciliar interesses incompatíveis. Mas carrega uma vantagem civilizatória: subordina a política internacional a regras, e não ao humor do governante de plantão. No trumpcentrismo, essa lentidão vira argumento para um bypass: fóruns paralelos, de estrutura ambígua, mandato elástico/eterno e dependência explícita do prestígio pessoal de quem os lidera.
Não é uma correção do sistema; é uma transferência do centro de gravidade. “Atalhos” institucionais raramente resolvem o déficit de governança — em geral apenas deslocam o controle da alavanca para um centro personalizado, com menos freios, menos transparência e mais margem para arbitrariedade.
Uma marca do trumpcentrismo é a diplomacia hiperpersonalista: menos Estado, mais figura; menos procedimento, mais improviso; menos burocracia (com todos os seus travões), mais contato direto e performático. A política externa passa a ser tratada como uma extensão do temperamento do líder — e não como expressão de uma continuidade institucional.
Esse estilo incentiva um mundo em que países calibram decisões não pelo direito, nem pela previsibilidade de compromissos, mas pelo que “agrada” ou “desagrada” o centro do palco. A ordem deixa de ser um arranjo minimamente estável e vira um ambiente de teste permanente: quem cede hoje, cede de novo amanhã; quem resiste hoje, pode ser punido no próximo ciclo.
No trumpcentrismo, a narrativa frequentemente vale mais que o resultado. A paz deixa de ser processo multilateral — com compromissos verificáveis, garantias, monitoramento e custos distribuídos — e passa a ser produto de vitrine: “eu fiz”, “eu criei”, “eu resolvi”. A lógica é simples e perigosa: se a paz precisa de autoria, ela precisa de um autor; se precisa de um autor, precisa de um protagonista.
Quando a política internacional vira palco de assinatura individual, instituições existentes passam a ser vistas como obstáculo: exigem tempo, consenso, registros, compromissos. E tudo isso atrapalha o objetivo central do trumpcentrismo: converter governança em paternidade simbólica. Fundar algo “novo” não é suprir ausência de mecanismos — é suprir ausência de crédito pessoal.
O fenômeno não é apenas diplomático; é também geoeconômico. A lógica de “renegociar tudo” por impulso central — via tarifas, ameaças comerciais e barganhas bilaterais — corrói a confiança em regras multilaterais e incentiva blocos e arranjos paralelos. A economia internacional, que depende de expectativa e previsibilidade, passa a operar sob o regime do anúncio: a estabilidade não viria de tratados, mas da capacidade de um centro impor termos e proclamar “vitórias”.
Pode haver ganhos táticos de curto prazo, mas o custo estratégico é alto: o mundo responde com diversificação forçada, rearmamento econômico, “planos B” e institucionalidade alternativa. O que se vende como eficiência tende a produzir fragmentação.
A consequência mais grave é a fragmentação da autoridade global. Se cada potência cria seu “conselho”, seu “clube” ou sua “coalizão”, conflitos passam a ter múltiplas mesas concorrentes — e atores escolhem a arena que mais lhes convém (fórum-shopping). Isso enfraquece padrões comuns e incentiva a política do espetáculo: quem tem mais holofote dita os termos.
Em vez de reformar o que existe, o trumpcentrismo tende a produzir um mosaico de iniciativas de validade variável, dependentes do ciclo eleitoral do país que as patrocina. A regra vira “negociável”; a governança vira “temporária”. Para países médios, isso é risco estrutural.
Aqui vale uma comparação histórica. Grandes ordens internacionais frequentemente foram descritas como “pax” — não porque fossem pacíficas em sentido moral, mas porque concentravam poder suficiente para reduzir certos conflitos e impor algum padrão de previsibilidade.
A Pax Romana caracterizou-se por estabilidade sob a hegemonia imperial, resultando em paz interna e rotas seguras, embora à custa da submissão das regiões periféricas e do uso de coerção. A Pax Britânica representou um período de paz associado ao comércio e domínio marítimo, sustentado pela supremacia naval e financeira britânica, proporcionando estabilidade para os fluxos internacionais, mas mantendo relações assimétricas com colônias e dependências. Após 1945, a Pax Americana combinou poder militar, alianças estratégicas e instituições como a ONU, Bretton Woods e regimes de comércio e segurança, e, mesmo diante de contradições, estabeleceu um modelo no qual a previsibilidade foi, em parte, institucionalizada.
O trumpcentrismo parece aspirar a algo distinto dessas “pax” clássicas: uma espécie de “Pax Trumpiana”, não baseada em instituições que sobrevivem ao governante, mas na imagem do governante como instituição. É a paz como evento de marketing: anunciada, assinada, creditada — e, sobretudo, personalizada. A diferença é crucial: as antigas “pax” eram duras, mas tinham gramática de império, de coalizão ou de sistema; o trumpcentrismo tenta reduzir a gramática a um nome próprio. E isso torna a ordem mais volátil, porque o centro não é uma estrutura — é uma persona.
E o Brasil diante desse cenário?
Para o Brasil, o trumpcentrismo é um alerta: quando a ordem internacional se torna personalista e transacional, o preço da autonomia sobe. Uma resposta prudente exige: defesa ativa do multilateralismo, não como idealismo, mas como gestão de risco contra tutela de um único centro; diversificação de parceiros e rotas econômicas, reduzindo vulnerabilidades a choques externos; investimento consistente em soberania, incluindo defesa, capacidade cibernética e proteção de infraestruturas críticas; e diplomacia firme e seletiva: cooperação quando houver benefício, resistência quando houver tentativa de alinhamento automático.
O trumpcentrismo tenta commoditizar a governança global: transforma paz, estabilidade e segurança coletiva em produtos que podem ser “feitos”, “vendidos” e creditados a um indivíduo. A história sugere o inverso: ordens duradouras são institucionais. Mesmo quando hegemonias impuseram estabilidade, ela foi sustentada por arcabouços — força, incentivos, regras, alianças, rotas, moedas, tribunais, burocracias.
Quando a paz vira propriedade de um indivíduo, ela deixa de ser bem comum e vira campanha. E campanhas, por definição, têm prazo de validade.
Nota (etimologia):
“Trumpcentrismo” é um neologismo formado por Trump + centr- (do latim centrum, “centro”) + o sufixo -ismo (do grego -ismós, via latim, usado para indicar “doutrina”, “tendência” ou “modo de pensar/agir”). Literalmente, portanto, significa “tendência de colocar Trump no centro”
Autor
Marcos Eduardo Lelis
Mestre em Direito – Ciências Jurídico-Políticas pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra - Portugal
Jurídico - Confraria 01