BRASIL – UM PAÍS DE FALSAS VERDADES
Neste artigo, se sustenta que a verdade, enquanto fato e existência, é una e inalterável; não existem múltiplas verdades, mas sim proposições que descrevem o mundo de forma correta ou incorreta, alterando a percepção da verdade. Logo, o objetivo central deste texto é fornecer elementos que auxiliem o leitor a distinguir entre opiniões, aparências e a verdade. Ao longo da discussão, se enfatiza que a verdade não se fragmenta para acomodar diferentes perspectivas, mas permanece única, ligada à realidade dos fatos. O debate, portanto, não deve ser finalizado, mas enriquecido por uma análise cuidadosa das evidências e pela superação de filtros que distorcem nossa percepção.
Ao reconhecer os diversos filtros — sejam físicos, instrumentais, contextuais ou cognitivos — que influenciam nossa interpretação da realidade, o texto propõe uma postura ativa e criteriosa frente à informação. Assim, ao invés de aceitar passivamente as “falsas verdades” ou “minha verdade”, o leitor é convidado a alinhar suas crenças às melhores evidências disponíveis. Esse esforço de alinhamento é fundamental para fortalecer o debate público e promover decisões coletivas mais confiáveis, especialmente em um contexto marcado pela rápida disseminação de desinformação.
As divergências que nos dividem nascem de aparências e percepções, mediadas por uma série de filtros. Partindo de um simples experimento de observação, se propõe um estudo que distingue fato, evidência e crença, e mostra-se como a ciência e os procedimentos públicos pretendem nos ajudar a alinhar nossas crenças aos fatos. Se analisa o ambiente político-informacional brasileiro, principalmente aquele conduzido pelas mídias sociais, onde a arquitetura das plataformas digitais amplifica aparências, distorce interpretações e dissemina falsas informações. Por fim, ofereço critérios de prudência epistêmica como um ato de responsabilidade cívica.
Palavras-chave: verdade; aparências; epistemologia; desinformação; Brasil.
1. Introdução
A frase “cada um tem a sua verdade”, dita em uma conversa informal ou nas redes sociais, soa como um gesto de paz, mas é uma armadilha. A verdade não se multiplica para agradar a todos, pois ela se refere ao modo como as coisas de fato são. O que se multiplica são as opiniões, são as falsas percepções, as perspectivas e, principalmente, as aparências. Confundir esses planos não apenas empobrece o debate; corrói a confiança e paralisa decisões coletivas, criando um cenário apropriado para a disseminação de falsas verdades. Em um ecossistema digital que edita a realidade em velocidade e escala nunca vistas, distinguir o que é verdade do que apenas parece ser verdade deixou de ser um quebra-cabeça filosófico para se tornar uma ferramenta de sobrevivência cívica.
2. Fato, Evidência e Crença – planos que não devem ser confundidos.
O ponto de partida para se chegar na verdade é organizar o pensamento em três camadas. Fato é o estado das coisas, que existe independentemente de nossa vontade ou percepção. Evidências são os sinais que o mundo nos envia e que conseguimos capturar por meio de nossos sentidos — registros, medições, documentos, testemunhos etc. Crença é a nossa resposta, o sim ou não que damos a uma ideia com base nas evidências que temos. A verdade pertence ao fato e às proposições que o descrevem fielmente. Como dito, ela é una e imodificável. Não aceita variações. Nossa tarefa, como cidadãos e seres humanos, é tentar alinhar nossas crenças às melhores evidências, pois são elas que nos apontam o caminho de volta ao mundo real, ou seja, à verdade. Quando essa cadeia se rompe — até por um erro honesto, um viés inconsciente ou uma manipulação deliberada — não nascem “outras verdades”, mas apenas descrições falsas e aparências enganosas da verdade.
3. Um Experimento Mínimo para Entender a Divergência
Inspirando-se no Mito da Caverna de Platão, imagine uma lâmpada branca numa sala. Entre ela e um primeiro observador, colocamos um filtro amarelo; entre ela e um segundo, um filtro azul. O primeiro relata, com sinceridade, ver uma luz amarela. O segundo, com igual sinceridade, diz ver uma luz azul. Ambos descrevem corretamente a aparência da verdade sob suas condições, mas nenhum deles propõe a verdade, qual seja, a fonte emite luz branca. O experimento mostra por que pessoas de bem podem divergir sem que a suposta verdade se quebre. Na realidade, a divergência mora nas janelas de acesso, não no objeto lá fora. Quando traduzimos isso em linguagem precisa, quando retiramos os filtros, a contradição desaparece. A verdade transparece “a fonte de luz é branca”. A verdade acaba por prevalecer sobre a alegação de que “a luz parece amarela sob o filtro amarelo” e “parece azul sob o filtro azul” também são.
4. De onde Vêm as Aparências e Por Que Não São a Verdade.
As aparências - falsas verdades ou a “minha verdade” - nascem das mediações. Filtros físicos (refração da luz, perspectiva), instrumentais (eixos de um gráfico, cortes de um vídeo, a formulação de uma pergunta de pesquisa), contextuais (iluminação, ângulo, momento da observação), cognitivo (capacidade de ver e interpretar) e, talvez os mais traiçoeiros, os filtros da nossa própria mente (o viés de confirmação, que nos faz aplaudir o que já cremos, ou o viés de repulsa, que nos faz execrar aquilo que ofende nossa crença – salientamos que os termos crer e crença não se delimitam ao aspecto religioso. São usados com sentido amplo). Some-se a isso a pressão social e os modelos de negócio que lucram com a confusão entre impacto emocional e acurácia factual. Nenhum desses fatores muda o que é a verdade, mas todos podem distorcer dramaticamente nosso acesso ao mundo.
5. Brasil, Redes Sociais e a Economia da Aparência
O cenário brasileiro recente é um laboratório dessa tensão, pois as plataformas digitais não foram construídas para a verdade, mas para a captura da emoção humana. Elas exploram nosso desejo de pertencer, nossa indignação e nossa necessidade de confirmação. É assim que a foto de uma enchente antiga em outro estado ressurge como se fosse de hoje; que o discurso de uma hora de um político é fatiado em dez segundos que invertem seu sentido; que um gráfico com eixos manipulados gera pânico sobre a economia; que números sem fonte se tornam manchetes em grupos de mensagens. As redes sociais se tornaram tereno fértil para a disseminação de falsas verdades que se adequam aos propósitos nefastos e são absorvidas e disseminadas pelos mais incautos.
A resposta institucional — via decisões judiciais ou normas eleitorais — tenta mitigar os danos, mas não substitui a responsabilidade individual. Não existe a “verdade do meu grupo”. Existem grupos com crenças diferentes, habitando um mesmo e único mundo que pode, ao fim e ao cabo, ser descrito de forma correta ou incorreta.
6. Prudência Epistêmica – o Conhecimento.
Se a verdade é uma e as aparências são muitas, a prudência não é um ceticismo que paralisa, mas um método que liberta. Em vez de colecionar certezas instantâneas, o convite é para refazer a cadeia fato-evidência-crença a cada alegação importante. Isso significa perguntar: O que exatamente está sendo afirmado? Onde está a evidência primária (o documento completo, o dado bruto)? Há outras fontes independentes que confirmam isso? Qual o contexto de tempo e lugar? Estou vendo a imagem inteira ou apenas um recorte (de vídeo, de dados, de uma fala)? Quem tem interesse em promover esta versão dos fatos? Quão confiante eu realmente estou para compartilhar isso?
Essa rotina não "cria" a verdade; ela nos aproxima dela. É um ato de higiene mental e responsabilidade social.
Sempre vamos ouvir aquela celebre frase “Mas eu vi com meus próprios olhos!” — Sim, você viu uma aparência, e sua descrição dela pode ser honesta. Mas a aparência não é a totalidade do fato, ou seja, pode não ser a verdade.
Mas, “Cada cultura/comunidade tem sua verdade.” — Essa ideia, muitas vezes nascida de um anseio legítimo por respeito a diferentes vivências, comete o equívoco de estender essa validação aos fatos brutos. Culturas têm narrativas, valores e normas distintas, mas a composição química da água ou a órbita da Terra são as mesmas para todos.
Então, “Se tudo é mediado por filtros, então nada é verdade.” — Esta é a conclusão oposta. É justamente porque existem filtros que precisamos de métodos (medição, transparência, debate, crítica) para atravessá-los e checar o que vemos, ou seja, chegar à verdade.
7. Conclusão
Insistir que a verdade factual é una e imutável não é um ato de arrogância, mas a condição fundamental para que nossas divergências sejam produtivas e para que possamos construir um futuro sobre alicerces sólidos. Quando aprendemos a separar fato, evidência e crença, percebemos que as aparências — às vezes parciais, outras vezes fraudulentas — não dissolvem o mundo real, apenas o encobrem. Em um país cujo debate público se dá, em grande medida, em um sistema frágil e de fácil adulteração o cultivar a prudência e exigir transparência não é apenas um exercício intelectual. É o mais necessário dos trabalhos cívicos. Democracias sólidas precisam desse chão comum.
São Paulo, 16 de outubro de 2025
Marcos Eduardo Lelis - Advogado
Advogado com sólida formação acadêmica e experiência consolidada no Direito Público.
Mestre pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
Comentarista Jurídico e Político – Programa 'Café com Notícias' Rede Brasil de Rádio e Televisão – Rede Cidade Sat – Apresentador Gilvandro Oliveira Filho - analisando temas de relevância nacional relacionados ao Direito Público, gestão governamental e atualidade política brasileira.